Eu tenho um amigo que, de todas as pessoas que eu conheço, ele é a quem de forma mais genuína e fundamentada acredita em Deus. Ele se chama Teófilo, mas eu o trato simplesmente por "Teo".
Estranhamente (ao menos para mim), ele não segue qualquer religião. Então, é bem comum, quando nos encontramos, eu gastar o precioso tempo dele assediando-o para que ele responda minhas perguntas. Numa dessas ocasiões eu tentei entender como é que ele sabia das vontades de Deus. Como Deus pensava? Como ele sabia o que Deus queria? Se não havia isso escrito em um livro ou mesmo passado via tradição oral de uma geração para outra, como Deus fazia chegar a ele aquelas informações?
E o Teo sempre procura me expor seus pensamentos de forma bastante didática, como se eu fosse uma criança de 10 anos de idade. Segundo ele, Deus criou todas as coisas: as vivas e as não vivas. Mais especificamente, Ele criou os átomos e as partículas muito menores que os átomos, assim como todas as interações entre elas. E boa parte daquelas "forças" entre as partículas podem ser aproximadas muito bem por fórmulas matemáticas relativamente simples, se levarmos em consideração que a existência de tudo mais que há de material no universo depende delas. As Leis de Newton, inclusive a da gravitação, por exemplo, Teo acha que deram muito trabalho a Deus, que não precisaria ter feito as coisas de forma que as leis do movimento e da atração gravitacional entre os corpos fossem tão fáceis de se descrever matematicamente. Mas não! Deus teve o cuidado de descomplicá-las para que pudéssemos, sem grande esforço, reconhecer em quase todos os cantos do universo, a sua assinatura. Segundo Teo, aquelas leis funcionam como uma evidência que Deus teria plantado em todos os lugares e em todas as épocas, e que poderia ser verificada por pessoas de todas as etnias, de todas as crenças, de que AQUELE, SIM, era o "livro das revelações" e que deveríamos ter a coragem e a curiosidade de desbravar as páginas seguintes se quiséssemos realmente saber mais sobre Deus.
Mas também teriam sido criadas por ele - ou por causa dele - todas as moléculas, desde as mais simples, como a da água, até as enzimas e os mecanismos inacreditavelmente complexos e eficientes que transformam os seres vivos, mesmo os minúsculos e aparentemente insignificantes, em sofisticadíssimos laboratórios químicos ambulantes e praticamente onipresentes. Assim como também fez as células, em sua enorme variedade, como fábricas de si mesmas, aparentemente autônomas, e que, ainda hoje, mesmo os organismos unicelulares mais elementares, ainda nos custa muito decifrar. Teo acha que o fenômeno da vida deve ter sido a maior viagem de Deus, quando ele se distraiu e se deixou possuir totalmente por sua inspiração, materializando o que talvez seja o ponto mais alto da sua obra. Mas também serviu para nos mostrar, sem filtros, a sua grandiosidade, os seus gostos, como funciona a sua mente e como de fato ele pensa.
E tinha algo que me incomodava nisso...
Talvez seja melhor, mas não ficou muito melhor. Não é?
Ao comentar isso com ele, ele gasta uns instantes para refletir sobre o assunto e me esclarece que, na visão dele, este não seria o caso. Segundo ele, as leis, a complexidade e a simplicidade funcionam como uma espécie de oráculo através do qual, se nos dispusermos a isso, podemos identificar, pouco a pouco, a lógica e os mecanismos que norteiam a criação divina. Ter um pós doutorado qualquer e não usar esse conhecimento para, direta ou indiretamente, ajudar a identificar e preservar na "obra de Deus" a harmonia e a sustentabilidade inerentes a ela, não parece ser uma evidência de que você entendeu o mecanismo das diversas formas de manifestação divina presentes em tudo que existe. Da mesma forma que seguir um livro qualquer que alegadamente tenha a mensagem divina não faz muito sentido se as práticas ou explicações propostas pelo livro não convergem com o que podemos depreender do material que de fato nos foi fornecido por Deus, que é o universo em que vivemos. Mas, se a pessoa realmente quiser buscar um sentido que alinhave todos os fenômenos, sejam eles físicos, sociais, ou ecológicos, aí, sim, um doutorado ou qualquer outra forma de observar e estudar a Natureza de forma mais sistemática vai ajudar muito. Mesmo assim, isso não descarta a possibilidade de uma pessoa mais talentosa conseguir chegar às mesmas conclusões de outras formas. A disposição, a capacidade e a humildade de observar e aprender com o que está em nosso entorno - ou mesmo dentro de nós - seriam as características que provavelmente abrem a janela para essas revelações, que podem emergir de um sem número de experiências; desde cuidar de crianças em um orfanato, produzir uma música, ou até a partir do mero ato de examinar - e vigiar! - cuidadosamente nossos próprios pensamentos e sentimentos. E pode ser que outros seres vivos percebam essa estratégia implícita que permeia tudo que aflora do universo de outras formas que nós, seres humanos, desconhecemos. No frigir dos ovos, qualquer que seja sua forma de buscar Deus, este conjunto praticamente infinito de coisas que não foram elaboradas nem implementadas por nós, seres humanos, é o que teria a capacidade de servir como referência, como gabarito, para avaliar se nossas interpretações, sempre míopes, estão se aproximando ou se distanciando daquilo que seria "a palavra de Deus".
Inconformado eu insisti. "Ok. Você olha pra areia da praia e descobre lá uma infinidade de organismos e substâncias diferentes que coexistem e dependem uns dos outros e da água do mar e da luz do sol, e que resistem e se adaptam às pessoas que passam pela areia, ou indo se banhar no mar, ou vendendo cerveja. Como, a partir dessas informações, você vai saber, por exemplo, como você deve se comportar, quais ou que tipo de pessoas você deve amar ou repudiar para atender às vontades de Deus?"
Neste momento, acho que o Teo quase desistiu de mim! Mas ele conseguiu se recompor e continuou com a frase que provavelmente valeu por toda a conversa que tivemos.
Disse que quando você abre para ler um livro que inequivocamente foi escrito por Deus, não cabe a você dizer ao livro o que ele tem que te dizer. Tudo que temos que fazer é nos certificar de que realmente Deus é o autor daquilo que estamos estudando e o ÚNICO manancial de informações que sem sombra de dúvidas nos foi fornecido por Deus são as coisas, os seres e as leis que governam tudo que existe. Ou seja, para quem DE FATO quer saber da "palavra de Deus", ter certeza de que a fonte de informação escolhida realmente se originou dEle deveria ser muito mais importante do que ver atendidas as suas expectativas sobre o que encontrar lá. Segundo o Teo, talvez a vontade de Deus esteja expressa de alguma ou de inúmeras formas em todos os cantos: nas explosões solares, viajando em campos eletromagnéticos pelo espaço ou dentro de nós mesmos, dentro dos nossos vasos sanguíneos, dos nossos neurônios e, quem sabe, até na nossa imaginação.
E, pensando no que Teo disse, isso até tem algum sentido porque, desta forma, todos os seres humanos (e até mesmo todos os seres vivos) teriam a mesma oportunidade de contemplar a obra divina e de tentar entender o que se passa na cabeça de Deus; quer a pessoa estivesse no centro de Londres, ou no alto do Himalaia, ou numa tribo no meio da Amazônia. Se, por exemplo, ela entender como a floresta funciona a ponto de conseguir conviver em paz com ela, aquela pessoa provavelmente está entendendo Deus sem nunca ter lido um livro especial, sem pertencer a uma linhagem específica, a uma raça ou uma etnia superior, sem nunca ter frequentado um banco escolar.
Talvez não consigamos enxergar plenamente a vontade de Deus exatamente pelo fato de ela ser tão presente e abundante... mais ou menos com amor de mãe. Teo argumenta que cabe a nós observar e ler, como se quiséssemos encontrar as respostas... ou melhor, como se quiséssemos encontrar as perguntas que de fato Deus quer que façamos. E ele continua: "Será que Deus se importa, por exemplo, com a roupa que Maria usa? Com o que João faz para ter prazer? Ou com a pessoa com quem Pedro dorme?" Pode ser que o que acontece especificamente com o Demétrius ou com o Teófilo NÃO ESTEJA no rol das coisas que Deus considere de fato importantes. Será que Deus não estaria mais interessado, por exemplo, em que a sua obra não seja depredada ou destruída com guerras, fome e poluição? Não parece mais razoável que Deus esteja mais interessado em que aprendamos com o que ele DE FATO construiu. Por isso deixou tudo a nossa disposição para ser explorado, não importando o lugar, a época ou ventre de onde nascemos, consolidando, assim, uma informação totalmente à prova de fraudes e de aproveitadores. Talvez essa experiência de aprender com o que de fato Deus fez, em lugar de aprender com o que disseram que ele disse, seja tão transformadora que todas as demais questões parecerão pueris diante do que depreendermos dela.
Mesmo assim, eu continuo ateu por razões que não vou abordar aqui porque não é a minha intenção fazer com que você deixe de acreditar em Deus. Mas gastei uns dias pensando no assunto e, apesar de tentadora a forma como o Teo se relaciona com o que ele chama de Deus, acho que, se eu acreditasse em Deus, eu iria preferir tratar como sagrado um livro qualquer que, em lugar de me forçar a mudar as minhas perguntas, defendesse os valores que para mim sempre foram o a mais divina e única expressão da verdade.. Seria muito mais fácil para mim acreditar em um Deus que tivesse sentimentos, medos e desejos parecidos com os meus.
Um Deus que se preocupasse, de alguma forma, em levar a sua palavra a todos os seres vivos. Que se preocupasse em ser entendido por homens, baratas e fungos... Um Deus assim eu acho que não conseguiria amar... muito menos temer.
E você?
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